sábado, dezembro 27, 2008

UM CONTO DE FÉ

Por T.J.Gama, em 27.12.08
O dia começa com um sol amarelado, o calor era insuportável. Ao longe se via uma casinha coberta de palha. Na frente da casa crianças esmirradas brincavam de peteca. Aproximei-me e quase que imediatamente senti que toda aquela brincadeira não tinha a mesma alegria das crianças de minha casa. Os rostos eram tristes, como a querer pedir ajuda e seus olhos assim que deram com os meus tinham que um misto de esperança e desalento.
A mãe, talvez sentindo a aproximação de um estranho veio até a entrada da casa, seu rosto não diferia muito dos pequenos seres que ali procuravam se entreter e de olhos percucientes e assustadiços falou-me : bom dia moço – pensei, o que tinha de bom no dia para aquelas gentes – mas retruquei, bom dia senhora, estou procurando pela casa de um senhor conhecido por “Zé do Caju”. E ela respondeu-me:
- ah! O Zé deve tá na roça, a casa dele fica perto de um cajuzeiro grande, não tem o que errar é só seguir aquele caminho. – disse apontando um caminho de terra vermelha ladeada por uma vegetação tosca e ressequida.
- obrigado senhora – e segui adiante, andei pelo menos hora e meia até chegar em uma casa pequena, de enchimento coberta de palha. Olhando ao redor pude perceber que algumas galinhas ciscavam no quintal e um pouco mais adiante uma cabra pastava, ou tentava pastar algumas folhas da vegetação que mais pareciam desnutridas como aquela gente.
Busquei pelo olhar algum sinal da presença do dono da casa, mas nada, nenhum sinal do homem. Comecei a andar no terreno e ao me afastar alguns metros eis que vejo uma pessoa caída, parecia um homem de aproximadamente 64 anos de idade, rosto bastante tostado pelo sol, rugas abundantes e seu rosto denotava estar sentindo muitas dores.
Corri até ele e assim que me avistou seu rosto contorceu-se no que parecia um sorriso. Debrucei-me sobre ele e perguntei : seu “Zé do Cajueiro” ?. Ele apenas retorceu novamente o rosto, como a concordar com o que eu dizia. Com muito custo consegui carregá-lo até a casa, onde o ambiente mostrava apenas uma cama de solteiro, colchão velho com um lençol não muito limpo, uma cadeira e pequena mesa, um fogão de lenha com duas bocas, muita cinza e nenhuma panela sobre o fogão ou mesa, o que denotava que pelo menos naquele dia não havia sido feita nenhuma refeição.
Coloquei-o sobre a cama e com uma pequena vasilha de barro que encontrei no jirau retirei água de um pote e dei de beber ao “Zé”, que sorveu a água com certa dificuldade, lentamente e depois com um olhar agradecido fechou os olhos e dormiu, agora não mais se via aquela careta de dor, mas apenas um olhar cansado.
Esperei por longas duas horas até que o Zé acordasse e este assim que acordou disse - obrigado moço, eu tava o dia todo deitado naqyele chão e não conseguia levantar.
Estava começando a ficar preocupado com o senhor. Tudo bem agora ?
- Tá sim moço, só me deu uma tontera e eu caí. Agora to bem.
Não me perguntou quem eu era apenas sentiu-se na obrigação de agradecer e dizer que agora estava bem. Fiquei a me indagar como era o viver daquele homem simples, de aspecto rude e de uma singeleza de alma, que não indagava o porquê da minha presença naquela casa, apenas me olhava agradecido e esperava que me dispusesse a dizer de meus motivos – para ele o que importava era que eu tinha sido seu salvador, meus motivos eram irrelevantes – e ele aguardava.
Senti naquele momento que eu era a pessoa mais importante da face da Terra e isso de certo modo incomodou-me – pessoa da cidade grande, acostumado a ser um rosto a mais na multidão – de repente senti que cada pessoa tem um traçado de vida, um destino, uma missão, uma tarefa,....... bem, seja lá como queiram chamar. Mas os meus passos me levaram naquela casa, naquele dia e hora, exatamente quando o Zé mais precisava.
Pensei em Deus – sempre acreditei nele – mas as vezes me perguntava se ele estava olhando quando a gente precisava. E naquele dia seria a resposta ? porque o Zé precisava...........e talvez eu também precisasse acreditar mais em Deus, na sua onisciência, no seu cuidado para com suas criaturas, no seu amor. Enfim, no zelo que ele tem (ou teria) – aqui vou eu de novo a descrer na existência desse Deus que todos, ou quase todos, chamam quando se sentem de alguma forma tristes ou desiludidos. Então refazendo meus pensamentos, perguntei ao Zé – era assim que eu já o estava chamando, com aquela intimidade de quem já se conhece há muito tempo – o senhor vive sozinho nessa casa?
E ele me respondeu: - não, eu e Deus.
Sorri com sua resposta, mas continuei:.......... Mas Zé e quando não se sente bem quem lhe ajuda? No que ele retrucou: se é só um caso leve a gente conta com os vizinhos, mas se o caso se complica conto com a ajuda de meu Pai do Céu. E acrescentou: e sempre deu certo.
Resposta simples e que confirmava o que já tinha me dito – que naquela casa moravam o Zé e Deus.
É respondi. Aquele homem de aspecto rude e cansado com as lides da vida tinha uma fé inquestionável em Deus e até falava em “parceria” quando dizia “e sempre deu certo”.
Como questionar aquela idéia, ou mais que uma idéia, um ideal de vida, a crença absoluta na existência de Deus e em seu poder de prover a todos, segundo as suas necessidades ou merecimentos.
Lembrei-me então daquela família que havia encontrado há pouco, daquelas crianças desnutridas, daquela mulher assustada e perguntei-me, além das necessidades óbvias quais eram suas outras necessidades? Criam também em Deus dessa forma inconteste ou apenas estariam conformadas com suas desditas?
Minha mente vagava entre a religião ou a crença em Deus – é porque são coisas bem distintas - pode-se ter uma religião e não ter fé inquestionável em Deus ou vice-versa. E então lembrei-me dos milhões de desesperançados do mundo. Daqueles que não tem o pão de cada dia nem teto para morar, dos que usando terminologia moderna são os sem teto, sem camisa, sem emprego......... ou sem nada.
Pensei nos governos, nas Ong’s, na sociedade em geral e me perguntei quando e como aquela situação iria acabar? Não obtive resposta, porque não sabia a resposta. Apenas olhei para aquele homem e sua fé inabalável e ainda – pasmem – tentei talvez, medir aquela fé (se era possível) e disse: Zé mas o que acontece se não puder chamar os vizinhos para lhe ajudar, como foi o caso de agora e ele em sua simplicidade respondeu : ainda posso chamar por Deus e se eu merecer ele manda alguém me ajudar. E completou: o senhor num tá aqui. Foi eu que pedi pra Deus manda alguém pra me ajudar........e o senhor chegou.
Bem era simples e só. Envergonhei-me de tentar questionar aquela fé e como a querer não deixar que percebesse a minha gafe disse-lhe: e desse dia em diante o senhor pode contar com um amigo.
Desisti de questionar qualquer coisa e para reforçar a concepção de amigo procurei pensar nas questões práticas: comida, remédios, roupas, pois era isso que um amigo devia prover a outro amigo quando o encontra em situação difícil. E mais uma vez pensei na magnanimidade de Deus, que leva alguém de posses até alguém que nada pode e curvei-me perante Deus e sua imensa bondade.
Nunca mais esqueci do Zé e sua fé e ainda hoje sempre que posso vou até aquele rincão de terra – que não foi esquecido por Deus – E renovo minha fé.

4 comentários:

Mari disse...

Tekinha,

Feliz 2009 pra você e família, repleto de Amor, Paz e muita Alegria...

Bjs

Teca Gama disse...

Idem

Mari disse...

Belo dia pra você Mulher!

Teca Gama disse...

Gostei da foto.

bjs